![]() Cena de orgia do fantástico Shortbus, pré-estréia e sábado no Arteplex do shopping Frei Caneca |
![]() Cena do argentino La León |
Assistir a La León no MIS já se torna um programa atraente pelo novo espaço, pelo charmoso café e pela reinclusão de um importante ponto cultural da capital. Além disso, será possível (re)tomar contato com um filme autoral de expressiva qualidade, um bom representante da qualificada cinematografia argentina. Em fotografia de belíssima textura, em preto-e-branco, o diretor e roteirista Otheguy ambientou sua história sobre solidão e isolamento no delta do rio Paraná, ao norte do país.
A narrativa acompanha o conflito geralmente silencioso e introspectivo, mas de aura violenta, entre o jovem trabalhador rural Alvaro (Jorge Roman), cuja homossexualidade o faz se sentir à parte das pessoas, e o truculento Turu (Daniel Valenzuela), o condutor da balsa La León, a única comunicação daquela pequena comunidade com o mundo. Alvaro satisfaz suas necessidades com desconhecidos de passagem, e Turu se considera um guardião dos locais e de seu estilo de vida.
De forma lenta, íntima e muito sensível, Otheguy constrói a tensão entre os personagens. Álvaro não proclama sua orientação sexual, mas também não a esconde, apenas a silencia entre pessoas todas ensimesmadas. É Turu, em sua intolerância, que aos poucos revela ter emoções conflitantes a serem processadas. Otheguy é econômico e preciso nessa construção dramática, nunca abandonando a forte e dominante presença da água na comunidade estagnada no tempo. Não é para todos os paladares, mas é obra sólida e artesanal.
Solavanco
Já bem mais exuberante, o diretor e roteirista John Cameron Mitchell surpreende em Shortbus. Depois de arrebatar o mundo com sua fascinante estréia em longa, o cult Hedwig – Rock, Amor e Traição (2001), um dos meus filmes favoritos na última década, Mitchell cria uma fantasia em torno da sexualidade contemporânea, em especial numa cidade cosmopolita como Nova York. Não há papéis definidos e o que é necessário é ir atrás e descobrir seu próprio prazer, seja a combinação que for. Shortbus é o nome de um bar/salão que oferece arte, política, música e muita, muita carnalidade. Cada um se manifesta como pode e quer, seja de forma lúdica ou fodendo.
Mitchell é bastante casual em toda a exposição erótica: as muitas cenas de sexo em total nudez são semi-explícitas, incluem masturbação, ereção e ejaculação. Na cena-clímax da orgia, Mitchell e seu cameraman inclusive ficaram nus para não constranger o resto do elenco. É sem dúvida a produção norte-americana mais graficamente sexual já realizada fora do gueto pornográfico.
Os personagens do filme também se sentem solitários e sofrem de carência comunicativa, como em La León, mas eles residem não no fim, mas sim num dos centros do mundo, NY. Isto faz toda a diferença! Enquanto o filme é pansexual e hedonista em suas liberdades, o resultado é ousado e caloroso. Acontece que Mitchell busca a densidade dramática e psicológica de seus personagens na segunda metade do filme e nem sempre acerta. O espectador não se interessa pelo drama de alguns, e fica um gosto de ‘quero mais’ para a leviandade carnal anterior.
Se com Hedwig Mitchell construiu um personagem roqueiro central forte e vigoroso e em torno dele distribuiu a liberdade sexual e lisérgica, em Shortbus ele excita o espectador com sua oferta voyeur e fetichista e depois pede intimidade para resolver os problemas de seus personagens. Parece que ele quer compromisso sério depois de duas noites de trepada fenomenal. É meio frustrante. Mesmo assim, Shortbus é uma experiência obrigatória para jovens, curiosos e cinéfilos. E, ainda mais exibido à meia-noite, pode sugerir algumas idéias para o "depois do cinema".







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